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A Mensagem Fotográfica
 


Folha de S. Paulo - 17/06/2008

Moradores do morro da Providência no enterro dos três jovens que, segundo a polícia, foram entregues por militares a traficantes.

Foto: Rafael Andrade/Folha Imagem

Moradores do morro da Providência no enterro dos três jovens que, segundo a polícia, foram entregues por militares a traficantes

Este não é o tipo de foto que estamos acostumados a ver publicada nos jornais para retratar enterros. Se buscarmos na memória, veremos que, normalmente, são destacados parentes próximos ou, no caso de enterros de personalidades, a multidão que faz fila para acompanhar o funeral e famosos. No entanto, aqui aparece um grupo de pessoas que não chega a ser grande e, ao mesmo tempo, não é possível identificar rostos, nem saber o grau de proximidade que cada um tem com as vítimas. Nota-se também que a dor parece ter a mesma intensidade entre todos os retratados.

É significativo que o grupo de pessoas que aparece na imagem, em sua maioria jovens, do sexo masculino e negros representa justamente a fatia da população mais atingida pela violência no Rio de Janeiro. O abraço e as cabeças baixas revelam toda a dramaticidade da cena na forma de um lamento coletivo. A dor pela morte dos colegas (não por acaso jovens, homens e negros) faz refletir sobre uma dor maior e diária, causada pela situação vivida por esse 'grupo de risco'. Sem dúvida, o segundo plano da imagem contribui para isso: a visão de uma série de túmulos aglomerados que parece seguir até o infinito, lembra, nesse contexto, todos aqueles que já foram, de alguma forma, vítimas da violência. É notável que o número de túmulos na foto é muito maior do que o número de pessoas vivas. Por fim, poderia-se dizer que os jovens da imagem encontram-se à beira dos túmulos, o que também faz referência à pequena distância existente entre vida e morte. Apesar da pouca idade, sobreviver é uma tarefa difícil para os meninos que vivem nos morros do Rio de Janeiro ocupados pelo tráfico.



Escrito por Daniel Douek às 01h09
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