Folha de S. Paulo -20/10/07 - CAPA
Jovens assaltam veículo em frente ao autódromo de Interlagos (zona sul de SP), onde acontece amanhã o GP Brasil de Fórmula 1
Foto: Rickey Rogers/Reuters

Há muito elementos que podem ser analisados na imagem acima. A primeira coisa que chama a atenção é o fato dos dois jovens que assaltam o carro serem negros. Toda a sua "negritude" é reforçada pela presença de uma mulher branca que, com cara séria, assiste a cena. Parece haver aí uma clara distinção entre o "negro assaltante" e o "branco cidadão", pois o olhar e expressão no rosto da mulher próxima à cena, nos remete muito mais à uma postura de reprovação. A imagem pode ser perigosa no sentido de reforçar certos esteriótipos negativos que são comumente atribuídos aos negros. Talvez o significado fosse diferente caso não houvesse a presença da mulher branca na foto. (na verdade a dicotomia entre o que representa o perigo e o que não representa é mais ampla: de um lado uma dupla de homens, jovens, negros, - tudo o que há de mais temível - de outro a mulher, branca, adulta, sozinha, simbolizando talvez tudo o que não precisamos temer)
Mas há outra coisa importante: o fato dos jovens aparecerem com os rostos "borrados" faz com que imediatamente os percebebamos como menores de idade. Essa imagem, ao flagrar menores de idade no exato momento do assalto, pode ter uma força muito grande nos debates em torno da redução da maioridade penal. Ao olhar para a foto é quase imediato o pensamento de que esses jovens representam uma ameaça à sociedade e, portanto deveriam estar em uma prisão, que nem gente grande. Sem querer tomar partido nessa questão, basta dizer que ao retratar apenas o assalto, imagem não diz nada sobre a condição do jovem pobre no Brasil, a condição das prisões (que pode piorar, muito mais do que corrigir os presos), etc, etc. A foto é apenas um recorte e não pode ser tomada isoladamente, mas imagens são muito poderosas na formação de opiniões.
Finalmente, as duas placas de trânsito de "proibido parar e estacionar" que aparecem parcialmente na fotografia, parecem sugerir que parar na cidade de São Paulo é sempre um risco. Em outras palavras, se estamos de carro e não queremos ser assaltados, não podemos parar de jeito nenhum.
Escrito por Daniel Douek às 21h58
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Folha de S. Paulo - 17/10/2007 - CAPA
Ato contra CPMF no Anhangabaú (SP) que pretendia 2 milhões, mas, segundo a PM, só atraiu 15.000 no momento de maior público
Foto: João Wainer/Folha Imagem

Sem dúvida o objetivo da foto é sugerir uma manifestação completamente esvaziada. Os organizadores esperavam dois milhões de pessoas, a polícia contou 15 mil, mas pela foto temos a impressão de que o número de participantes é de apenas pouquíssimas centenas, que se confundem com os pedestres que costumam encher as calçadas do centro da cidade. Havia, no mínimo, duas possíbilidades de foto: de baixo ou de cima. Uma foto de baixo, no meio das pessoas poderia dar uma idéia de grande quantidade de pessoas, mas uma foto aérea (de cima de um prédio? de um helicóptero?) se afasta da aglomeração e revela que a praça não estava cheia. Mostrar as bordas vazias ao invés de aproximar o foco e fazer com que os manifestantes ocupem todo o espaço da foto, é também um meio de produzir um efeito de "vazio". Pode parecer estranho uma foto como essa na capa da Folha, já que o jornal faz críticas recorrentes à CPMF, à cobrança exagerada de impostos e, portanto, deve apoiar a manifestação. Mas, ao que parece, a foto chama a atenção para algo maior do que a manifestação contra a CPMF. Se olharmos a foto publicada dois dias antes, em que dois milhões de pessoas saíram em procissão do Círio de Nazaré (veja abaixo), podemos estabelecer uma contraposição perfeita. Dois milhões era justamente o número de pessoas esperado para o ato contra a CPMF, mas quem conseguiu esse número de participantes foi o Círio de Nazaré. Fica a sugestão de que é a religião, muito mais do que a política que move o povo brasileiro e o faz sair às ruas. Obviamente, para o jornal e grande parte dos leitores, a política é mais importante do que a religião. Uma prova desse ponto de vista é o conteúdo das notícias do jornal, muito mais sobre política do que sobre religião. Com isso, mostrar uma manifestação política esvaziada logo após ter mostrado uma manifestação religiosa bastante cheia, em que não cabia mais ninguém, pode conter um recado do jornal no sentido de que todos nós deveríamos nos engajar em uma luta polítia. E que luta política é essa? A luta contra a CPMF...
Escrito por Daniel Douek às 09h34
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Folha de S. Paulo - 15/10/2007 - CAPA
Procissão do Círio de Nazaré, que levou 2 milhões de pessoas às ruas de Belém (PA), segundo estimativa da PM
Foto: Raimundo Paccó/Folha Imagem

A foto acima traz uma aglomeração infinita de pessoas. Pode-se identificar aqui e ali vendedores ambulantes que carregam o isopor com a sua mercadoria acima de seus ombros, aproveitando a grande quantidade de pessoas reunidas. Toda a multidão encontra-se virada para um mesmo lado, rumando para a mesma direção, todos pelo mesmo motivo. A massa parece formar um corpo único, em que as pessoas perdem toda a sua individualidade em nome do coletivo.
Citando duas passagens do texto "A Massa", de Adorno e Horkheimer:
"é preciso ter em conta a contradição pela qual as massas possuem, por um lado, a qualidade de união, de comunhão irrefletida (...) e, por outro lado, costumam ser formadas por indivíduos que não se conhecem ou que só superficialmente se conhecem uns aos outros".
"A massa é um produto social - não uma constante natural; um amálgama obtido com o aproveitamento racional dos fatores psicológicos irracionais e não uma comunidade originalmente próxima do indivíduo; proporciona aos indivíduos uma ilusão de proximidade e união. Ora, essa ilusão pressupõe, justamente, a atomização, a alienação e a impotência induvidual. A debilidade objetiva de todos na sociedade moderna (...) predispõe cada um, também, para a fragilidade subjetiva, para a capitulação na massa dos seguidores. A identificação, seja com o coletivo ou com a figura superpoderosa do Chefe, oferece ao indivíduo um substituto psicológico para o que, na realidade, lhe falta".
Escrito por Daniel Douek às 21h22
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