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A Mensagem Fotográfica
 


Folha de S. Paulo - 19 de setembro de 2008

O presidente George W. Bush retorna ao Salão Oval, na Casa Branca, após falar sobre a crise financeira americana

Foto: Jim Watson/France Presse

O presidente George W. Bush retorna ao Salão Oval, na Casa <BR>Branca, após falar sobre a crise financeira americana

Quando a fotografia 'desinforma'

Estamos todos cansados de saber que fotografias carregam significados. Ora, em um momento de crise financeira mundial, o que a imagem acima parece nos dizer? O púpito, no primeiro plano, encontra-se vazio, enquanto George Bush, chefe de Estado dos EUA, aparece de costas, "saindo de fininho", como que refugiando-se na segurança do Salão Oval da Casa Branca. O sentido trazido pela foto parece ser justamente o de um Estado que se ausenta nos momentos de crise econômica grave, não interferindo no mercado. Ao acompanhar as notícias, no entando, percebemos que o estado americano cogita assumir os "papéis podres" das empresas [link], isto é, o governo compraria ações que não valem mais nada como uma das medidas para tentar salvar o mercado financeiro. Isso sem falar no aumento considerável da dívida pública [link] para promover socorros a bancos e seguradoras que revela que, longe de se ausentar, o Estado tem assumido grandes prejuízos em nome da preservação do mercado. E não devemos esquecer que toda a população paga essa conta. Ao longo das últimas décadas muito se falou em "Estado zero", a crença em que o Estado não deveria se envolver nos assuntos econômicos uma vez que a "mão invísivel" regula o mercado sozinha e qualquer interferência seria prejudicial. Pois bem, basta um momento de crise para perceber que os governos têm um papel absolutamente central que não pode ser facilmente descartado. Sem querer fazer um juízo sobre isso, é interessante apenas verificar que a imagem acima, longe de informar, desinforma. Constrói um sentido completamente diverso do desenrolar dos fatos.

Outra leitura possível faria referência ao final do mandato de Bush. O "sair de fininho" (envergonhado?) simbolizaria o fim de um governo controverso, justamente em um momento econômico delicado e levantaria a questão: qual a responsabilidade de Bush nas dificuldades enfrentadas hoje? Mas essa é uma outra história.



Escrito por Daniel Douek às 13h28
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Folha de S. Paulo - 24 de julho de 2008

Em visita a Jerusalém, Barack Obama observa fogo eterno no memorial do Holocausto

Foto: Paul J. Richards/France Presse

<b>Em campanha:</b> Em visita a Jerusalém, Barack Obama observa fogo eterno no memorial do Holocausto

E lá vai Barack Obama em sua tentativa desesperada de construir uma nova imagem de si mesmo. Desde o primeiro momento em que Obama passou a ser encarado como um forte candidato a vencer as prévias do partido democrata, inúmeras foram as tentativas de adversários políticos de associarem a imagem de Obama ao Islamismo e, com isso, aos países árabes inimigos dos EUA. Além de diversas afirmações, uma fotografia do jovem Obama vestindo trajes muçulmanos e uma charge publicada na capa da revista New Yorker colaboraram no sentido de levantar dúvidas a respeito da identidade do democrata, que repetidas vezes disse-se cristão. Vale lembrar que de acordo com pesquisa recente do Pew Research Center, 10% dos americanos acreditam que Obama é realmente muçulmano e isso pode ser fatal à candidatura do democrata. Levando-se em consideração esse pano de fundo, a visita que Obama faz a Israel é significativa. A FOTO - Na imagem acima, Obama veste as cores da bandeira do Estado judaico (azul e branco), usa a Kipá e encontra-se no memorial do Holocausto, local que relembra o trágico momento da história da humanidade. A posição curvada de Obama, humilde, o semblante sério e contido, iluminado pelo fogo, parece mostrar que ele sente muito pelos acontecimentos dos quais foram vítimas, entre outros, 6 milhões de judeus. A fotografia parece querer dizer que Obama sabe o que aconteceu e, portanto, podería-se pensar que está alerta e não pouparia esforços para evitar que algo do tipo aconteça novamente. Obama aparece sozinho na imagem, o que neutraliza o caráter 'oficial' do evento. Em outras palavras: numa fotografia em que aparecessem na cena seus assessores, ou membros do governo israelense (que sem dúvida estão presentes atrás da câmera), o evento teria o caráter de planejado e, poderia-se dizer, artificial. No caso, Obama, sozinho, parece gozar de um momento de isolamento e reflexão. Tudo leva a crer que, pelo menos no presente, estar ao lado de Israel (e da comunidade judaica) e afastado do Islamismo e dos países árabes inimigos dos EUA, é pré-condição para aqueles que têm alguma pretensão de tornar-se presidente dos EUA. Nesse sentido, a fotografia cumpre sua função.



Escrito por Daniel Douek às 00h06
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Folha de S. Paulo - 10/07/2008

Mísseis balísticos com alcance de até 2.000km são lançados ao ar em exercício no deserto do Irã

Foto: France Presse/Sepah News

Mísseis balísticos com alcance de até 2.000 km são lançados ao ar em exercício no deserto do Irã

Afinal, a fotografia é responsável apenas pelo registro de um evento ou ela pode ser responsável direta pela criação desse evento que ela parece apenas registrar?

Evidentemente, ninguém defenderá a idéia de que essa foto foi tirada ao acaso, como se o fotógrafo estivesse andando no deserto iraniano e, de repente, surpreendido pela rajada de mísseis, tivesse tempo de captar uma imagem com os artefatos ainda perto do chão. Certamente, trata-se de um evento programado para acontecer na frente das câmeras. Este é um exemplo clássico de foto de um evento que aconteceu justamente para ser fotografado. Um evento que não teria o impacto que teve caso não fosse registrado e tivesse as imagens espalhadas por todo o globo terrestre. Não há dúvidas de que o teste de mísseis capazes de atingir Israel promovido pelo Irã, tem como finalidade principal enviar um recado ao mundo. "Nossos mísseis estão prontos para serem disparados de qualquer lugar a qualquer momento, com rapidez e precisão". A frase foi dita por Brig-Gen Hoseyn Salami, comandante da Força Aérea da Guarda Revolucionária Iraniana. É interessante observar que a frase e a fotografia querem dizer exatamente a mesma coisa. Obviamente, o poder de convencimento da imagem é muito maior, uma vez que confere realidade às palavras ditas pelo comandante. Sem as imagens, as palavras poderiam parecer apenas delírios políticos. Em todo o caso, as fotos, de certa forma, não revelam nada sobre o arsenal iraniano: ao olhar a foto, não podemos afirmar com certeza se os mísseis são mesmo capazes de atingir um raio de 2.000km, e também não podemos saber se estes são mesmo apenas uma mínima fração de tudo aquilo que o Irã possui. A mágica da fotografia está justamente no fato dela abrir nossa imaginação para muito além do que está sendo mostrado. Isso ocorre ao observarmos qualquer fotografia. Imaginamos aquilo que aconteceu momentos antes, aquilo que aconteceu momentos depois, ou o que está por trás do que está sendo mostrado. Nesse caso, embora a foto dos mísseis usados no teste não mostre nada disso, ela abre nossa imaginação para enxergar todo um arsenal, com mais mísseis e aviões, assim como um grande exercíto por trás, determinado a defender e atacar se for preciso.

P.S.: É verdade que muitos têm discutido a veracidade da foto acima (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft1107200801.htm). Eles afirmam que, na realidade, seriam apenas três mísseis - o terceiro da esquerda para a direita seria uma montagem. Isso apenas revela, uma vez mais, o poder da imagem: se a idéia é mostrar força ao mundo, uma foto causa mais impacto do que uma frase e, certamente, quatro mísseis causam mais impacto do que três.



Escrito por Daniel Douek às 20h11
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Folha de S. Paulo - 17/06/2008

Moradores do morro da Providência no enterro dos três jovens que, segundo a polícia, foram entregues por militares a traficantes.

Foto: Rafael Andrade/Folha Imagem

Moradores do morro da Providência no enterro dos três jovens que, segundo a polícia, foram entregues por militares a traficantes

Este não é o tipo de foto que estamos acostumados a ver publicada nos jornais para retratar enterros. Se buscarmos na memória, veremos que, normalmente, são destacados parentes próximos ou, no caso de enterros de personalidades, a multidão que faz fila para acompanhar o funeral e famosos. No entanto, aqui aparece um grupo de pessoas que não chega a ser grande e, ao mesmo tempo, não é possível identificar rostos, nem saber o grau de proximidade que cada um tem com as vítimas. Nota-se também que a dor parece ter a mesma intensidade entre todos os retratados.

É significativo que o grupo de pessoas que aparece na imagem, em sua maioria jovens, do sexo masculino e negros representa justamente a fatia da população mais atingida pela violência no Rio de Janeiro. O abraço e as cabeças baixas revelam toda a dramaticidade da cena na forma de um lamento coletivo. A dor pela morte dos colegas (não por acaso jovens, homens e negros) faz refletir sobre uma dor maior e diária, causada pela situação vivida por esse 'grupo de risco'. Sem dúvida, o segundo plano da imagem contribui para isso: a visão de uma série de túmulos aglomerados que parece seguir até o infinito, lembra, nesse contexto, todos aqueles que já foram, de alguma forma, vítimas da violência. É notável que o número de túmulos na foto é muito maior do que o número de pessoas vivas. Por fim, poderia-se dizer que os jovens da imagem encontram-se à beira dos túmulos, o que também faz referência à pequena distância existente entre vida e morte. Apesar da pouca idade, sobreviver é uma tarefa difícil para os meninos que vivem nos morros do Rio de Janeiro ocupados pelo tráfico.



Escrito por Daniel Douek às 01h09
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Folha de S. Paulo - 25/12/2007

Fiéis visitam a igreja da Natividade, onde Cristo teria nascido, segundo a tradição; Belém deve receber 40 mil turistas, recorde em sete anos

Foto: Kevin Frayer/Associated Press

Fiéis visitam a igreja da Natividade, onde Cristo teria nascido, segundo a tradição; Belém deve receber 40 mil turistas, recorde em sete anos

A situação parece mais calma em Israel. O número de turistas é recorde desde o início da intifada palestina. Papai Noel é o grande anfitrião. Sorridente e bonação, parece estar lá como símbolo da paz. Mas, não nos enganemos: papai noel é um balão e, como tal, pode estourar ou muchar a qualquer momento, com um simples espeto de agulha. A efemeridade do balão nos lembra a própria efemeridade da paz nesta que é uma das regiões mais turbulentas do planeta.

Caminhando todos na mesma direção, os turistas parecem não se dar conta do bom velhinho. Exceto a criança que aparece na cena, que volta o rosto para trás, quebrando o ritmo da imagem. Se, no contexto da fotografia, o papai noel encarna o símbolo da paz, o fato de apenas a única criança da fotografia dirigir seu olhar a ele parece nos lembrar que a contrução de um mundo de paz deve passar necessariamente pelos jovens.



Escrito por Daniel Douek às 12h12
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Folha de S. Paulo - 14/11/2007 - CAPA

Detentos no presídio Aníbal Bruno, em Recife, rendidos por policiais militares

Foto: Alexandre Auler/JC Imagem

Detentos do presídio Aníbal Bruno, em Recife, rendidos por policiais militares

A tradicional foto que aparece na capa dos jornais após as rebeliões em presídios.

É prática comum fazer com que presidiários tirem as roupas, ficando apenas de cueca ou short curto e nada mais. Essa prática pode ter como objetivo claro e aberto o fato dos policiais poderem se certificar de que não há ninguém armado. Mas parece haver algo mais do que isso. Em nossa sociedade, o uso de roupas é sinal de cultura e civilização, constituindo, portanto, elemento importante dentre os inúmeros elementos que diferenciam homens e animais. Desprover seres humanos de suas roupas pode sugerir a retirada de sua condição humano-civilizada, podendo-se tratar, assim, de uma tentaiva de categorizá-los numa outra espécie.

Se nos lembrarmos de Foucault, a fotografia revela também a idéia de prisão como instituição disciplinar por excelência. A prisão tem por objetivo ajustar (disciplinar) seres humanos e age diretamente nos corpos dos mesmos que, no caso, devem permanecer sentados, com as pernar dobradas (elevando-se o joelho), e as mãos na parte de trás da cabeça baixa. No comando, um policial da tropa de choque assume seu papel de adestrador de homens. Curiosamente, os policiais têm como auxiliares dois animais. No jogo que se forma, o cachorro torna-se um símbolo interessantíssimo. Treinado, aprendeu a se comportar de determinada maneira (civilizado?) e, agora, está ao lado da polícia na tentativa de domesticar aqueles que, no mundo dos homens, não se comportaram adequadamente.

Finalmente, vale dizer também que se há mesmo essa oposição entre o comportamento civilizado e o comportamento selvagem, a fotografia sugere a vitória (ou menos menos a maior força) da civilização. Isso pelo fato de tão poucos civilizados serem capazes de dominar tantos selvagens.



Escrito por Daniel Douek às 10h25
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Folha de S. Paulo - 31/10/2007 - CAPA

Da esq. para a dir., Dunga, o presidente Lula, Romário, Ricardo Teixeira e Joseph Blatter (Fifa) na cerimônia

Foto: Jorge Araújo/Folha Imagem

Da esq. para a dir., Dunga, o presidente Lula, Romário, Ricardo Teixeira e Joseph Blatter (Fifa) na cerimônia

Mais uma sobre a copa do mundo no Brasil. Pelo terceiro dia seguido...

No início da semana, um assessor do governador de São Paulo, José Serra, afirmou que ficar de fora da foto que seria feita no anúnico oficial da Fifa (confirmando o Brasil como sede da Copa de 2014) significaria "prejuízo eleitoral certo". Curioso... O futebol e, particularmente, a Copa do Mundo, mais do que simplesmente um evento esportivo, é também um evento político. Basta observar a história das copas para lembrar dos diversos usos que chefes de estado fizeram desse evento que, muitas vezes, serviu para a exaltação do nacionalismo de um país, gerando popularidade aos líderes do momento. A Copa de 1934, vencida pela Itália fascista de Mussolini, é um caso exemplar. No Brasil, a ditadura militar se aproveitou do título da seleção na copa de 1970: a vitória nos gramados foi usada como símbolo da vitória do país em todos os aspectos (social, econômico, etc.), sob o comando dos militares. Seria agora a vez de Lula?

Interessante verificar que é Lula quem parece comandar a cena: é ele quem está com o microfone e dirige a palavra aos demais. Dunga e Joseph Blatter aplaudem a fala do presidente, gesto que não pode ser feito também por Romário, que está com as mãos ocupadas, segurando a taça, e só pode dirigir o olhar para Lula. Mas o que chama a atenção é a figura de Ricardo Teixeira. Ele não tem as mãos ocupadas e mesmo assim não está aplaudindo. Suas mãos (presas uma na outra) parecem atadas. Olhamos a expressão de seu rosto e percebemos que é como se o presidente da CBF estivesse dormindo em pé. Em outras palavras, é como se Ricardo Teixeira estivesse "desligado". Fica a sugestão de que, no fundo, é Lula é quem dá as cartas e não o presidente da CBF.

(poderia-se imaginar, por outro lado - numa segunda interpretação -, que, ao deixar de aplaudir e "dormir" durante o discurso de Lula, Ricardo Teixeira está fazendo pouco caso da fala do presidente. Ou seja, no fundo, tanto faz aquilo que o presidente fala ou deixa de falar... Fico com a primeira interpretação por um motivo simples: todos as outras pessoas que aparecem na cena se dirigem a Lula, seja por meio do olhar, do aplauso, ou ambos, o que fortalece o presidente do país em detrimento do presidente da CBF. Mas tenho minhas dúvidas...)



Escrito por Daniel Douek às 11h14
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Folha de S. Paulo - 30/10/2007

O técnico da seleção brasileira, Dunga, e o governador de MG, Aécio Neves, deixam hotel em Zurique (Suiça) para almoçar na Fifa

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O técnico da seleção brasileira, Dunga, e o governador de MG, Aécio Neves, deixam hotel em Zurique (Suíça) para almoçar na Fifa

Começou a corrida dos estados para sediar jogos da Copa de 2014 no Brasil. Num primeiro momento é de se estranhar que o técnico Dunga e o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, dividam a cena (estamos mais acostumados a ver Dunga ao lado de seus jogadores), mas a Copa de 2014 está aí e pode trazer dividendos políticos. O comantante da seleção é seguido por Aécio Neves e, por estar um passo atrás, Aécio se torna quase um sombra de Dunga, o que nos traz a impressão de que onde Dunga for, ele irá atrás. Até à Zurique, na Suiça, local em que a foto foi tirada. A imagem que fica é a de que Aécio não pode perder a seleção de vista. Trazer jogos da Copa do Mundo (e quem sabe até um jogo do Brasil) para Minas Gerais contribuiria para elevar ainda mais a sua já alta popularidade, o que seria de grande valor para a sua possível candidatura às próximas eleições presidenciais.



Escrito por Daniel Douek às 11h11
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Folha de S. Paulo - 28/10/2007 - CAPA

Gol de Schiaffino na final da copa de 50 no Maracanã

Foto: France Presse

Gol de Schiaffino na final da Copa de 50 no Maracanã

Não é mais possível duvidar da força que uma imagem pode ter. Após quase 60 anos, a fotografia acima continua sendo símbolo da derrota do Brasil na Copa de 50. Ela parece conter diversos elementos que sintetizam a derrota no congelamento de um milésimo de segundo.

Ao fundo o Maracanã aparece lotado. A síntese da derrota não poderia deixar de levar em conta toda a torcida brasileira que lotou o Maracanã. Lembrando rapidamente o que aconteceu naquele dia: o Brasil jogava em casa e precisava de apenas um empate para conseguir o seu primeiro título mundial. Além disso, ainda saiu na frente no placar, marcando 1x0. Para a surpresa geral de todos, o Uruguai virou a partida e levou a Copa, silenciando a torcida, que já dava o título como certo. Seguindo a imagem, quem aparece exatamente no centro é Schiaffino, herói uruguaio que marcou o primeiro gol da equipe. Atrás dele, três jogadores brasileiros "vencidos". Um deles, caído no chão, parece lembrar a queda de toda a seleção diante do Uruguai. Mas a figura do goleiro brasileiro é também bastante significativa. Nossa visão é a mesma do goleiro. Ao olhar para frente, nos deparamos com o ataque do jogador uruguaio. Assim, é com se nós mesmos tivessemos levado o gol. Vale notar ainda que, mesmo esticando-se todo, o goleiro brasileiro não passa nem perto da bola. A bola, por sua vez, encontra-se exatamente no "ângulo da fotografia". No futebol, o ângulo é talvez o local mais sagrado do gol; é o mais difícil de atingir e, quando um jogador consegue esse feito, a bola é, normalmente, indefensável.



Escrito por Daniel Douek às 10h15
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Folha de S. Paulo - 27/10/2007 - CAPA

O empresário Nenê Constantino (Gol) dá tapa na câmera do fotógrafo Alan Marques da Folha, ao chegar para depor em inquérito no DF

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O empresário Nenê Constantino (Gol) dá tapa na câmera do fotógrafo Alan Marques, da <b>Folha</b>, ao chegar para depor em inquérito no DF

A foto e a legenda parecem dizer duas coisas diferentes. Ao olhar para a imagem, a primeira impressão que temos é a de que os dois homens que aparecem retratados são colegas que acabaram de se encontrar. O braço direito estendido e a plama da mão aberta de Constantino parecem traduzir um gesto amigável, ao mesmo tempo em que a expressão no rosto do fotógrafo está mais próxima de um sorriso do que sinalizando apreensão ou preocupação. A legenda, por outro lado, contradiz essa primeira impressão ao afirmar que, na verdade, o empresário está tentando desviar a máquina fotográfica, impedindo que o fotógrafo possa capturar sua imagem.

Ironicamente, Constantino é flagrado por outro fotógrafo justamente no momento em que tenta impedir uma foto sua. Certamente, a ação do empresário é muito mais relevante (e mereceu a capa da Folha) do que a sua imagem indo depor. Importante dizer também que, ao tentar impedir o trabalho do fotógrafo, a impressão que fica é a de que ele deve ter culpa em algo.

Mas qual o sentido dessa imagem? Será que Constantino é realmente o grande foco de interesse? Acredito, mais do que retratar um dos sócios da Gol numa situação um tanto constrangedora, a grande sugestão é a de que é impossível deter a mídia em seu esforço de "retratar a verdade dos fatos". Essa imagem confere força justamente aos fotógrafos e seu suposto trabalho infalível. Assim, mesmo se alguém tentar impedir a retratação da realidade, o retrato será feito e, mais do que isso, a própria tentativa de impedimento será mostrada.



Escrito por Daniel Douek às 09h44
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Folha de S. Paulo - 26/10/2007 - CAPA

Funcionários da cooperativa mineira Casmil, uma das acusadas de adulterar leite, retira amostra para medir a acidez do produto

Foto: Joel Silva/Folha Imagem

Funcionário da cooperativa mineira Casmil, uma das acusadas de adulterar leite, retira amostra para medir a acidez do produto

O leite é um dos alimentos mais consumidos pelos brasileiros e, portanto, a suspeita de contaminação é assunto de grande apreensão. A primeira coisa a notar na fotografia acima é a posição das latas de leite. Se olharmos com atenção, elas parecem formar um mapa do Brasil! A semelhança com o traçado do país pode sugerir uma série de coisas. Em primeiro lugar, sugere a grande extensão do problema, que atinge todo o Brasil. Isso levanta uma questão interessante, uma particularidade dos tempos comtemporâneos: uma empresa, estabelecida em um determinado local, consegue espalhar seus produtos por todas as partes. Em segundo lugar, podemos perceber que há latas cheias e outras vazias. Seguindo a comparação com o mapa do Brasil, a maior parte das latas vazias encontra-se no que seria o nordeste, certamente a região em que as dificuldades financeiras da população são maiores - e portanto, as dificuldades de consumo também.

Mas há outras coisas: a foto retrata o tratamento do leite de modo muito pouco higiênico. O leite encontra-se em latões sobre um chão amarelo bastante sujo, a funcionária que aparece retratada não usa luvas e, finalmente, os latões estão abertos, dando a impressão de que o leite está sujeito a qualquer contato com o meio externo como, por exemplo, insetos que circulam pelo ar.

Por fim, no canto superiror esquerdo da imagem, há um galão preto cujo conteúdo não podemos saber. O galão (de plástico e opaco) é do tipo daqueles que armazenam substâncias químicas e, no contexto das acusações por que passa a empesa retratada na foto, poderia-se imaginar um galão contendo algum elemento estranho ao consumo.



Escrito por Daniel Douek às 19h27
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Folha de S. Paulo - 24/10/2007 - CAPA

Manifestante tenta conter policiais durante confronto em Caracas entre as forças de segurança e milhares de estudantes contrários à reforma constitucional proposta por Hugo Chávez

Foto: Jorge Silva/Reuters

Manifestante tenta conter policiais durante confronto em Caracas entre as forças de segurança e milhares de estudantes contrários à reforma constitucional proposta por Hugo Chávez

Uma leitura possível:

Será que uma manifestação de estudantes em Caracas é tão relevante assim para os leitores da Folha de S. Paulo, de modo que a foto acima ocupe quase um quarto da capa do jornal? (veja a capa em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cp24102007.htm). Estranho. Para entender a escolha dessa imagem talvez tenhamos que ir além da manifestação estudantil e verificar em que contexto ela foi utilizada. Basta olhar a manchete de ontem do jornal para perceber algumas coisas: "PF vai investigar ligação entre PT e Cisco". Ora, e o que mostra a fotografia? Justamente um rapaz tentando "conter", segurar, impedir a ação policial (obs: diferentemente da versão impressa do jornal, a imagem acima está cortada e não podemos ver as pernas do rapaz, o que prejudica a leitura). Ao olhar a capa do jornal, as duas primeiras coisas que percebemos é esta fotografia e a manchete principal. Novamente, embora as duas notícias (da manifestação em Caracas e da investigação da PF) não tenham nenhuma relação entre si, lado a lado, a polícia de Caracas na foto parece representar a própria PF, enquanto que o manifestante que tenta impedir a ação policial, parece ser o PT, como se o partido estivesse tentando barrar as investigações.



Escrito por Daniel Douek às 11h56
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Folha de S. Paulo - 23/10/2007 - CAPA

Moradores de rua dormem diante da catedral da Sé (região central de São Paulo)

Foto: Marlene Bergamo/Folha Imagem

 

<b>A PRAÇA É NOSSA</B> Moradores de rua dormem diante da catedral da Sé (região central de São Paulo)

O céu fortemente nublado, carregado, que ocupa grande parte da imagem, parece conferir tom nebuloso ao problema dos moradores de rua - ou ao problema que eles representam? O que é mais interessante é que a mureta que "corta" a foto, parece dividir dois mundos: o dos moradores de rua e o resto. Na frente, no mundo dos moradores de rua, não há nada além do concreto do chão, usado como cama. Na parte de trás, onde se encontra o mundo propriamente dito, podem ser vistos os prédios e árvores (vida?). Curiosamente, a igreja está para lá da mureta, o que causa a impressão de que até mesmo essa instituição faz parte do outro mundo, do mundo dos prédios, do mundo daqueles que tem onde morar. Por outro lado, embora esteja do lado de lá, a igreja está virada para o lado dos dois homens que dormem na praça, o que pode sugerir que, apesar de estar do outro lado, a Igreja permanece olhando para os desafortunados.

Outra coisa chama a atenção: pode-se perceber que a foto foi tirada de dia! Ora, mas os dois homens que aparecem na imagem estão deitados, dormindo. Pode-se questionar: Como é que eles se dão o direito de dormir em plena luz do dia, quando a maioria das pessoas está trabalhando? Novamente, a fotografia tomada isoladamente pode reforçar aquilo que muitos já pensam: "moradores de rua são aqueles que não querem trabalhar". Nesse sentido, a culpa da pobreza torna-se do próprio indivíduo e não da sociedade em que se encontra, do sitema econômico ou mesmo do governo.



Escrito por Daniel Douek às 19h47
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Folha de S. Paulo - 22/10/2007 - CAPA

O finlandês Kimi Raikkonen festeja a vitória no GP Brasil com ajuda de Felipe Massa, o que lhe rendeu o título mundial de F-1

Foto: Caio Guatelli/Folha Imagem

O finlandês Kimi Raikkonen festeja vitória no GP Brasil com ajuda de Felipe Massa, o que lhe deu o título mundial de F-1

Na semana passada, um leitor alertou para a necessidade de "geografizar" as fotografias, isto é, inserí-las no contexto mais amplo da capa do jornal, levando em conta a manchete, o tamanho, a posição, etc. Pois bem. A foto dessa segunda-feira mostra o finlandês Kimi Raikkonen de braços abertos, erguidos, com a garrafa de espumante na mão, comemorando o título mundial da F-1. A manchete principal do jornal: "estrangeiro lucra o dobro (do que o brasileiro) com a dívida do governo". Ora, qual a relação entre essa imagem e a manchete do jornal? Aparentemente, são dois assuntos completamente diferentes, mas basta lembrar da maneira como Raikkonen venceu a corrida para descobrir novos sentidos. O brasileiro Felipe Massa fez o melhor tempo nos treinos, largou na pole position, estava liderando toda a prova e, muito provavelmente, venceria a corrida tranqüilamente. No entanto, a vitória de Massa, que não tinha mais chances de ser campeão, impediria o título da Ferrari e, com isso, a equipe italiana optou por fazer com que o finlandês ultrapassasse o brasileiro nos boxes, nos momentos finais da corrida. Agora vejamos a manchete do jornal: "estrangeiro lucra o dobro com a dívida do governo". Raikkonen é o próprio estrangeiro que comemora graças à ajuda (às custas?) de um brasileiro e, com isso, sua imagem torna-se um símbolo perfeito para acompanhar a manchete, criando-se uma idéia de que frente o estrangeiro o brasileiro acaba sempre desempenhando um papel de figurante e, principalmente, deve se curvar aos interesses externos.



Escrito por Daniel Douek às 19h07
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Folha de S. Paulo -20/10/07 - CAPA

Jovens assaltam veículo em frente ao autódromo de Interlagos (zona sul de SP), onde acontece amanhã o GP Brasil de Fórmula 1

Foto: Rickey Rogers/Reuters

Jovens assaltam veículo em frente ao autódromo de Interlagos (zona sul de SP), onde acontece amanhã o GP Brasil de Fórmula 1

Há muito elementos que podem ser analisados na imagem acima. A primeira coisa que chama a atenção é o fato dos dois jovens que assaltam o carro serem negros. Toda a sua "negritude" é reforçada pela presença de uma mulher branca que, com cara séria, assiste a cena. Parece haver aí uma clara distinção entre o "negro assaltante" e o "branco cidadão", pois o olhar e expressão no rosto da mulher próxima à cena, nos remete muito mais à uma postura de reprovação. A imagem pode ser perigosa no sentido de reforçar certos esteriótipos negativos que são comumente atribuídos aos negros. Talvez o significado fosse diferente caso não houvesse a presença da mulher branca na foto. (na verdade a dicotomia entre o que representa o perigo e o que não representa é mais ampla: de um lado uma dupla de homens, jovens, negros, - tudo o que há de mais temível - de outro a mulher, branca, adulta, sozinha, simbolizando talvez tudo o que não precisamos temer)

Mas há outra coisa importante: o fato dos jovens aparecerem com os rostos "borrados" faz com que imediatamente os percebebamos como menores de idade. Essa imagem, ao flagrar menores de idade no exato momento do assalto, pode ter uma força muito grande nos debates em torno da redução da maioridade penal. Ao olhar para a foto é quase imediato o pensamento de que esses jovens representam uma ameaça à sociedade e, portanto deveriam estar em uma prisão, que nem gente grande. Sem querer tomar partido nessa questão, basta dizer que ao retratar apenas o assalto, imagem não diz nada sobre a condição do jovem pobre no Brasil, a condição das prisões (que pode piorar, muito mais do que corrigir os presos), etc, etc. A foto é apenas um recorte e não pode ser tomada isoladamente, mas imagens são muito poderosas na formação de opiniões.

Finalmente, as duas placas de trânsito de "proibido parar e estacionar" que aparecem parcialmente na fotografia, parecem sugerir que parar na cidade de São Paulo é sempre um risco. Em outras palavras, se estamos de carro e não queremos ser assaltados, não podemos parar de jeito nenhum.



Escrito por Daniel Douek às 21h58
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